quarta-feira, 31 de março de 2010

Sabia que precisava estar próximo Dele

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"Era tão estranho vê-lo a distância. Tão pequeno. No mundo, eu me importava com ele de uma maneira que não era possível no apartamento. Eu queria protegê-lo de todas as coisas terríveis que ninguém merece.
Cheguei muito perto dele. Bem atrás. Vi ele escrever É uma pena que seja necessário viver, mas é uma tragédia que possamos viver apenas uma vida. Dei um passo pra trás. Eu não podia ficar tão perto. Nem mesmo naquele momento.
Por trás de uma coluna, observei ele escrever mais, perguntas as horas e esfregar as mãos ásperas nos joelhos. Sim e Não.
Vi ele entrar na fila para comprar passagens.
Perguntei pra mim mesma Quando é que vou impedi-lo de ir embora?
Eu não sabia como lhe pedir, dizer ou implorar.
Quando ele chegou na frente da fila, fui ao seu encontro.
Toquei no seu ombro.
Consigo ver, falei. Que coisa idiota de se dizer. Meus olhos estão degringolando, mas consigo ver.
O que você está fazendo aqui? Ele escreveu com as mãos.
De repente, fiquei tímida. Não estava acostuma à timidez. Estava acostumada à vergonha. Timidez é quando você desvia o rosto de algo que quer. Vergonha é quando você desvia o rosto de algo que não quer
Sei que você está indo embora, falei.
Você tem que ir para casa, ele escreveu. Devia estar na cama.
Tá bom, falei. Eu não sabia como dizer o que queria dizer.
Deixa eu levar você pra casa.
Não. Não quero ir pra casa.
Ele escreveu Você está doida. Vai ficar resfriada.
Já estou resfriada.
Você vai ficar resgelada.
Não acreditei que ele estivesse fazendo uma piada. E não acreditei que eu estivesse rindo.
O riso levou meus pensamentos à mesa da cozinha, onde ríamos e ríamos. Era naquela noite que ficávamos próximos um do outro. Lá em vez da cama.

[...]

Não estou doida, disse a ele.

Você precisa ir pra casa.

Fiquei cansada, eu disse. Não fatigada, mas esgotada. Como uma daquelas esposas que levantam de manhã e dizem que não conseguem assar nem mais um pão.

Você nunca assou um pão, ele escreveu, continuando as piadas.

Então, é como se eu tivesse acordado e assado um pão, falei, e as piadas não paravam. Imaginei se chegaria o dia e que não faríamos mais piadas. Como seria? Qual a sensação?

Quando eu era garota, minha vida era uma música que ficava cada vez mais alta. Tudo me comovia. Um cachorro seguindo um estranho. Isso me fazia sentir tanta coisa. Um calendário mostrando o mês errado. Algo assim podia me fazer chorar. Me fez. O ponto em que a fumaça de uma chaminé se dissipava. Uma garrafa virada, estacionada na borda da mesa.

Passei a vida aprendendo a sentir menos.

Isso é envelhecer? Ou é algo pior?

Não é possível proteger-se da tristeza sem antes proteger-se da felicidade.

Ele escondeu o rosto atrás de seu diário, como se as capas fossem mãos. Ele chorou. [...]

[...] Puxei o livro dele. Estava molhando por lágrimas que escorriam pelas páginas como se o próprio caderno estivesse chorando. Ele escondeu o rosto nas mãos. Deixa eu ver você chorar, falei.

Não quero magoá-la, ele disse, sacudindo a cabeça para os lados.

Fico magoada quando você não quer me magoar, eu disse. Deixa eu ver você chorar.

[...]

Por que você está me deixando?

Ele escreveu Não sei como viver.

Também não sei, mas estou tentando.

Não sei como tentar.

Havia coisas que eu queria lhe contar. Mas eu sabia que elas o magoariam. Então, eu as enterrei e deixei que magoassem a mim. Encostei a mão nele. Tocá-lo foi sempre muito importante pra mim. Era uma coisa que dava sentido à vida. Nunca soube explicar o por quê. Toques pequenos, de nada. Meus dedos no seu ombro. A lateral de nossas coxas encostando quando nos apertávamos juntos no ônibus. Eu não sabia explicar, mas precisava. Às vezes eu imaginava todos os nossos pequenos toques costurados juntos.

[...]

Como algo podia merecer menos ser destruído?

Eu dise a ele Vou me esforçar mais se você ficar.

Tá, ele escreveu.

Só não me abandone, por favor.

Tá.

Não precisamos falar nisso nunca mais.

Tá.

[...]".

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(Trecho do livro: "Extremamente Alto & Incrivelmente Perto", de Jonathan Safran Foer)

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terça-feira, 30 de março de 2010

segunda-feira, 29 de março de 2010

sexta-feira, 5 de março de 2010

Old Bloodshot Moon

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{Yue Minjun}
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Aqui neste profundo Apartamento

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"Aqui neste profundo apartamento

Em que, não por lugar, mas mente estou,
No claustro de ser eu, neste momento
Em que me encontro e sinto-me o que vou,

Aqui, agora, rememoro
Quanto de mim deixer de ser
E, inutilmente, [....] choro
O que sou e não pude ter."

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[Fernando Pessoa]
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segunda-feira, 1 de fevereiro de 2010